terça-feira, 13 de julho de 2010

Guardado em mim


Abri meus olhos em tempo de ver que o dia ainda se vestia de noite,como noiva enlutada;e o vento era frio como açoite na esplanada.#e_conto2

Morri,isso sabia!Não estava no inferno nem no paraíso.Aquela vida não era mais minha e sim do Outro.Um ser que revezava-se comigo. #e_conto2

Ao longe,o som de estranha caixa de música,provocando em mim misteriosos acordes e despertares,depois que o coração parou de bater.#e_conto2

Não lembro mais quem fui.Trago tatuado abaixo da pele um sentimento impresso.O que tenho de melhor é o que ficara guardado em mim. #e_conto2

Acometido de uma tristeza quase infinita,ao sétimo dia - fiat lux -,precisei reinventar-me para,no Outro,ser revisitado sem demora.#e_conto2

Preso àquele estranho mausoléu,na vastidão do tempo,só via o brilho de uma chave enferrujada,jogada ao chão.Tateei na escuridão. #e_conto2

Pensei ouvir o bombar de meu coração sem vida,revivendo,mas era de fato o rufar dos tambores de um misterioso exército lá fora. #e_conto2

Com a chave enferrujada,consegui abrir o imenso cadeado que me aprisionava,mas quem saiu dali não fui eu, e sim o Outro. #e_conto2

O Outro,despido de mim,não era percebido pelo exército de soldadinhos de chumbo que marchavam para sitiar a fortaleza delicada. #e_conto2

No descampado,havia mais areia e vento,além daquela fortaleza no meio do nada,com uma rainha enlutada em seu interior,resistindo. #e_conto2

O Outro,que já fora Eu,sabia de tudo ao redor,por ouvir a conversa fiada dos soldados retardatários,em uniformes desconhecidos. #e_conto2

O Outro também vestia um uniforme diverso dos demais,na cor púrpura,e no interior do casaco,remexendo-o achou um precioso camafeu. #e_conto2

Nele,o retrato estampado de uma mulher de olhos tão vivos,que ele conhecia apenas em seus sonhos mais profundos,antes d'eu morrer. #e_conto2

Vestido de o Outro,fui vagando entre o País de Mim Mesmo* e aquele Reino das Sombras,procurando pela minha identidade perdida. #e_conto2

Meu corpo não possuía mais sombras;meus pés não deixavam pegadas na areia;minh'alma buscava outra razão para tornar a viver. #e_conto2

Entre o ribombar dos canhões e o rufar dos tambores,ouvia ao longe os acordes de uma canção tristemente linda,lindamente triste. #e_conto2

Aquele fim de mundo,era o local preferido para o Vento e a Chuva,duas entidades divinas,virem se amar;e tudo ao redor reduzindo. #e_conto2

O Outro,que repisava meus caminhos,sabia que diante da força da Natureza e do Amor,tudo é relativizado,tudo perde a sua proporção. #e_conto2

E o Outro,em sua diminuta existência,passou a ver o que os demais não enxergavam: Chuva em forma de mulher,Vento se fazendo gente. #e_conto2

E o que eu via com os olhos do Outro,ninguém mais sabia: gigantes almas sem corpos,diante de diminutos corpos sem alma,vagando. #e_conto2

A Chuva era odalisca imensa,girando em círculos,a dança dos sete véus,enquanto o Vento era bailarino fiel,rodopiando ao seu redor.#e_conto2

Duas almas imensas sem corpos,desejando tornarem-se gente,ainda que uma só vez,para consumar o amor impossível,naquela desolação. #e_conto2

Com os olhos emprestados do Outro,eu via outra verdade que assombrava os soldados que sitiavam e bombardeavam a fortaleza delicada.#e_conto2

Duas nuvens imensas se aproximavam daquele local,arrasando tudo ao redor:uma de Chuva quente,outra de Vento frio,num abraço mortal.#e_conto2

Duas almas antigas,prisioneiras do tempo,vivendo em um mundo perdido,no meio do nada,entre as dunas e o mar,entre o amor e o amar. #e_conto2

Naquele descaminho,eu estava sozinho,andando e não deixando pegadas nem sombras.Ninguém me via ou ouvia,era apenas um fantasma. #e_conto2

Enquanto isso,os tambores rufavam e os canhões rugiam diante dos portões da fortaleza delicada,onde diziam ter apenas alma penada. #e_conto2

Minha cartografia sentimental apontava um terreno de dunas movediças,cobrindo e descobrindo tudo ao redor. Eu não tinha mapa algum.#e_conto2

Minha topografia interior,cheia de altos e baixos,servia-me de guia naquele mundo estranho,em que acordei sabendo que estava morto.#e_conto2

As duas almas gigantes,antigas e errantes,fizeram um pacto com o Tempo,depois que foram reunidas pelo Sr. Destino,naquele areal. #e_conto2

Duas almas perdidas,que se reencontraram em seus descaminhos: a intuição da Chuva fazendo companhia à emoção do Vento a rodopiar. #e_conto2

E eu,que morto estava,sabia que para renascer bastava ter no peito de novo estouro de manada a afugentar de vez aquela alma penada.#e_conto2

Enquanto os soldados fustigavam os portões da fortaleza delicada,eram castigados pela fúria da Chuva e do Vento num abraço mortal. #e_conto2

Com a alma na ponta dos dedos e a rosa-dos-ventos na palma da mão,fui seguindo em frente,pois ali adiante enterraram meu coração. #e_conto2

Diante da fortaleza delicada haviam três portões e dessa bifurcação,apenas um levava ao meu coração,de mim retirado ainda em vida. #e_conto2

Três caminhos e apenas um destino certo. Na porta do meio havia uma flor misteriosa,vermelha como sangue vivo e eu morto de amor. #e_conto2

Diante daquela única flor no areal,resolvi arrancá-la para por no casaco,mas eis que a dor do espinho devolveu-me a vida perdida. #e_conto2

Eu continuava invisível para os soldados que olhavam aqueles pingos vermelhos no chão,procurando ao redor pelo inimigo ferido. #e_conto2

Vento e Chuva cessaram seu bailado,enquanto o portão do meio se destrancou sem explicação e pude adentrar na fortaleza delicada. #e_conto2

Entre o inesperado e o aguardado há caminho secular por onde temos que passar com o coração trespassado,no presente rumo ao futuro.#e_conto2

E que culpa tem o Tempo se o Vento é do Sul e a Chuva vem do Norte,se tudo depende,seja Vida ou Morte,mais de jeito do que sorte? #e_conto2

Toda alma é secreta,guardada a sete chaves,por sete vidas,dentro dum corpo qualquer,mera embalagem do viver e libertada pelo Amor. #e_conto2

O Vento do Sul e Chuva do Norte,duas almas gigantes,se encontraram num lugar remoto,perdido dentro de alguém e guardado em mim. #e_conto2

Pela porta lacrada da misteriosa construção,nada mais passou daquele dia em diante,nada mesmo,sequer o tempo ou alguma assombração. #e_conto2

O fogo da paixão e a luz do amor guiaram meus passos,que não deixam marcas pelo chão,até o portão.E eu morto,pensei:outra dimensão?#e_conto2

Mesmo desfalecido de mim,eu bem que sabia: o amor atua como uma bomba de efeito retardado,com tempo marcado para se abrir em flor. #e_conto2

Quem teme a vida,mais que a morte e o amor mais que a sorte,não deveria estar perto de mim,nem de meu jardim,no dia da floração. #e_conto2

O caminho que me trouxe até a fortaleza delicada fazia parte da bifurcação traçada e tatuada pelo Destino na palma da minha mão. #e_conto2

Para abrir aquela porta lacrada pelo Tempo,precisaria travestir-me de Vento,para entrar pelas frestas do próprio Tempo,indo além. #e_conto

No pacto com o Tempo,o Vento e a Chuva prometeram-se amor (e)terno,até o dia que suas almas gigantes encontrassem dois corpos.#e_conto2

Dois seres -1 corpo imenso d'água e outro gigante de ar em movimento- não conseguiam,pela eternidade,consumar o amor q os aproximou.#e_conto2

A Chuva tem seu corpo d'água movido pelo Vento e este,a todo momento,movimenta-se ao seu redor,por conta do amor à dama das águas. #e_conto2

Diante daquela fortaleza delicada forte delicadeza me tomou pela mão e só assim consegui atravessar o imenso portão trancafiado. #e_conto2

Trancado por dentro e nunca mais aberto por fora,o portão,lá dentro,eu morto,vi a silhueta de bela senhora envolta em véus escuros.#e_conto2

Obscuros são os caminhos do coração partido em bifurcação.Enlutada estava a Sra. daquele forte sitiado por canhões rugindo lá fora. #e_conto

A única trégua existente foi quando o Vento seguindo os passos da dama das àguas,a Chuva,postou-se com sua amada naquele umbral. #e_conto2

Enquanto isso,lá dentro,eu morto,mais ventava do que respirava e a Sra. daquela cidadela chovia sem parar por causa da sua solidão.#e_conto2

Para os apaixonados o tempo e o espaço são medidas,nunca limites.Os apaixonados limitam-se apenas a pactuar com o tempo e a vida.#e_conto2

A porta trancafiada por dentro, dentro daqueles dois solitários um mundo perdido sendo redescoberto em um segundo. #e_conto2

O vento faz-se gente de areia, a chuva veste-se de sereia com seu corpo d´água. Toda a mágoa do mundo, jaz fundo naquele rincão... #e_conto2

Toda gente daquela terra, sente-se viva, ainda que um só dia, por toda vida, somente quando sangra a alma, mais que o coração.. #e_conto2

O Vento do destino bifurcou os meus caminhos,levantou a poeira dos dias,fez-me ver o que as dunas do esquecimento escondiam... #e_conto2

Na cidadela,até então,inexpugnável,o vento embrenhou-se pelas frestas do portão e lá dentro tomou a forma da mais pura emoção. #e_conto2

A razão dizia à mulher solitária que o temporal lá fora,ali dentro,tinha outra razão de ser e em um novo ser se transforMARIA. #e_conto2

Quem nunca amou de verdade,jamais atravessou o pontilhão balouçante que separa as cidades da Razão da Emoção,pátrias dos amantes. #e_conto2

Um mundo inteiro se abriu em um segundo,separando o véu do passado do céu do futuro,quando o Outro viu fundo a Sra. enlutada. #e_conto2

Lá fora, Chuva e Vento silenciaram. Ali dentro da fortaleza delicada,um turbilhão de sentimentos e movimentos foram tomando forma. #e_conto

Vento e Chuva,vagando séculos juntos,sem se darem as mãos,viram no casal da fortificação,a chance de reunir,enfim,corpo e alma. #e_conto2

De tanto o Outro suspirar em vão,o Vento assumiu sua intenção.E a moça de tanto chorar ao léu,a Chuva transpôs do céu sua aflição. #e_conto2

Naquele local perdido no tempo e no espaço,longe de tudo e fora dos mapas,por um momento único,o casal secular consumou o seu amor. #e_conto2

O Vento,por um momento fez-se homem e a Chuva,por um instante,tornou-se mulher. Suspiros e choros foram silenciados. Gemidos, não. #e_conto2

O Outro,cedendo o corpo ao Vento,passou a explorar a topografia da mulher que dera vida à Chuva. O monte e o delta de Vênus mapeou.#e_conto2

Lá fora da fortaleza, os soldados petrificados não conseguiam mexer um músculo. O Tempo parara também para tudo observar. #e_conto2

O amor nunca chega antes do amar, assim como a dor nunca antecede a fúria do mar. Naquele instante só restava esperar. #e_conto2

E eu pude reunir-me com o meu Outro, e a rainha enlutada reviver o seu grande amor. Éramos novamente dois em um... #e_conto2

Naquele mundo perdido, em que a solidão havia vencido, apenas o amor verdadeiro libertava cada alma penada de sua prisão...#e_conto2

Foi preciso a eternidade para que Vento e Chuva, como vinho, e uva pudessem tornar a viver, e reviver seu perfume e sabor. #e_conto2

Quando o Tempo passou a movimentar outra vez sua mágica engrenagem, os soldados saíram de seu estado de suspensão. #e_conto2

Todos os soldados entraram desconfiados na fortaleza. Havia uma doce calmaria, onde antes imperava um imenso temporal. #e_conto2

Não acharam sinais de vida, nem corpo nem alma naquela calma. Só viram pequeno lago que se formou. #e_conto2

O soldado mais jovem quis encher o seu cantil com aquela água pura e cristalina, mas uma visão o sobressaltou... #e_conto2

Lá no fundo do pequeno lago um casal abraçado o observava como receio de que a água bebida, extinguisse aquele amor. #e_conto2

Então, o jovem soldado, sem nada dizer, avisou que aquela água poderia estar contaminada, que precisava dali sair. #e_conto2

Quando o último soldado enfim se retirou do local, o jovem olhou pela última vez aquele pequeno lago, que ficaria retido para sempre em sua retina. #e_conto2

Mas não saiu imune. Levou, com a complacência de meu Outro, uma pequena porção daquele amor secular em seu cantil. #e_conto2

De mil e mil anos Vento e Chuva se encontram naquele areal, no meio daquele mundo perdido, para renovar a esperança nos pequenos seres mortais. #e_conto2

Um ritual milenar que precisa de alguém para guardar uma amostra do ar em movimento e da água dançante, que vivem juntos, desde sempre. #e_conto2

Tudo estava, enfim, sacramentado: o amor, por fim, consumado, e o tempo consumido pela espera ficará sempre guardado em mim. #e_conto2

THE END

#e_conto, escrito em tempo real e online, no Twitter e depois publicado neste blog, por José Antonio Klaes Roig (conto protegido pela lei de direitos autorais).

Abaixo, trilha sonora informal do #e_conto2:

1. ALANIS MORISSETTE - NOT AS WE (NÃO COMO NÓS)

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=uk7CuWGY43g

2. JORGE VERCILO - FÊNIX

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=PQ1XHiYs6Ys

3. MUSE - NEUTRON STAR COLLISION (LOVE IS FOREVER)

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=MTvgnYGu9bg

4. STING & I MUVRINI - FIELDS OF GOD

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=BFNCiKqOoWE

5. YIRUMA - DESTINY OF LOVE

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=avZMM179-lo

6. TIMBALAND & ONE REPLUBLIC - APOLOGIZE

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=00kXKunX9rU

7. SNOW PATROL - RUN

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=xpqAxze8T60

8. INESSA GALANTE - LASCIA CH'IO PIANGA (ÁRIA DA ÓPERA RINALDO DE HANDEL)

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=gTwauWzxbtQ&feature=related

9. PAULO RICARDO - ONDE ESTÁ MEU AMOR

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=ejSG3M1R5S0&feature=related

10. SKANK - SUTILMENTE

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=18UCPZgj0EE&feature=fvst

11. MARIZA TERRA - HÁ PALAVRAS QUE NOS BEIJAM

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=tNxkyzXJeBI

12. ORANGE VOICES - SCREW SADNESS

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=NYgYiD1Gcoc&NR=1

13. SHAKIRA - PIENSO EM TI

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=L1S5XdTg1aw&feature=related

14. ALANIS MORISSETTE - UNDERNEATH

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=7lbAe1Q7IQg

15. EMMA SHAPPLIN - CUERPO SIN ALMA (ÓPERA OBSCURA)

Fonte: http://youtu.be/S8aj5Z0qGFA

16. LIGHT OF AIDAN FEAT. NOTE FOR A CHILD - IMPOSSIBLY BEAUTIFUL (INCRIVELMENTE BONITO)

Fonte: http://youtu.be/x5Y8x1zXE-w