terça-feira, 13 de julho de 2010

Guardado em mim


Abri meus olhos em tempo de ver que o dia ainda se vestia de noite,como noiva enlutada;e o vento era frio como açoite na esplanada.#e_conto2

Morri,isso sabia!Não estava no inferno nem no paraíso.Aquela vida não era mais minha e sim do Outro.Um ser que revezava-se comigo. #e_conto2

Ao longe,o som de estranha caixa de música,provocando em mim misteriosos acordes e despertares,depois que o coração parou de bater.#e_conto2

Não lembro mais quem fui.Trago tatuado abaixo da pele um sentimento impresso.O que tenho de melhor é o que ficara guardado em mim. #e_conto2

Acometido de uma tristeza quase infinita,ao sétimo dia - fiat lux -,precisei reinventar-me para,no Outro,ser revisitado sem demora.#e_conto2

Preso àquele estranho mausoléu,na vastidão do tempo,só via o brilho de uma chave enferrujada,jogada ao chão.Tateei na escuridão. #e_conto2

Pensei ouvir o bombar de meu coração sem vida,revivendo,mas era de fato o rufar dos tambores de um misterioso exército lá fora. #e_conto2

Com a chave enferrujada,consegui abrir o imenso cadeado que me aprisionava,mas quem saiu dali não fui eu, e sim o Outro. #e_conto2

O Outro,despido de mim,não era percebido pelo exército de soldadinhos de chumbo que marchavam para sitiar a fortaleza delicada. #e_conto2

No descampado,havia mais areia e vento,além daquela fortaleza no meio do nada,com uma rainha enlutada em seu interior,resistindo. #e_conto2

O Outro,que já fora Eu,sabia de tudo ao redor,por ouvir a conversa fiada dos soldados retardatários,em uniformes desconhecidos. #e_conto2

O Outro também vestia um uniforme diverso dos demais,na cor púrpura,e no interior do casaco,remexendo-o achou um precioso camafeu. #e_conto2

Nele,o retrato estampado de uma mulher de olhos tão vivos,que ele conhecia apenas em seus sonhos mais profundos,antes d'eu morrer. #e_conto2

Vestido de o Outro,fui vagando entre o País de Mim Mesmo* e aquele Reino das Sombras,procurando pela minha identidade perdida. #e_conto2

Meu corpo não possuía mais sombras;meus pés não deixavam pegadas na areia;minh'alma buscava outra razão para tornar a viver. #e_conto2

Entre o ribombar dos canhões e o rufar dos tambores,ouvia ao longe os acordes de uma canção tristemente linda,lindamente triste. #e_conto2

Aquele fim de mundo,era o local preferido para o Vento e a Chuva,duas entidades divinas,virem se amar;e tudo ao redor reduzindo. #e_conto2

O Outro,que repisava meus caminhos,sabia que diante da força da Natureza e do Amor,tudo é relativizado,tudo perde a sua proporção. #e_conto2

E o Outro,em sua diminuta existência,passou a ver o que os demais não enxergavam: Chuva em forma de mulher,Vento se fazendo gente. #e_conto2

E o que eu via com os olhos do Outro,ninguém mais sabia: gigantes almas sem corpos,diante de diminutos corpos sem alma,vagando. #e_conto2

A Chuva era odalisca imensa,girando em círculos,a dança dos sete véus,enquanto o Vento era bailarino fiel,rodopiando ao seu redor.#e_conto2

Duas almas imensas sem corpos,desejando tornarem-se gente,ainda que uma só vez,para consumar o amor impossível,naquela desolação. #e_conto2

Com os olhos emprestados do Outro,eu via outra verdade que assombrava os soldados que sitiavam e bombardeavam a fortaleza delicada.#e_conto2

Duas nuvens imensas se aproximavam daquele local,arrasando tudo ao redor:uma de Chuva quente,outra de Vento frio,num abraço mortal.#e_conto2

Duas almas antigas,prisioneiras do tempo,vivendo em um mundo perdido,no meio do nada,entre as dunas e o mar,entre o amor e o amar. #e_conto2

Naquele descaminho,eu estava sozinho,andando e não deixando pegadas nem sombras.Ninguém me via ou ouvia,era apenas um fantasma. #e_conto2

Enquanto isso,os tambores rufavam e os canhões rugiam diante dos portões da fortaleza delicada,onde diziam ter apenas alma penada. #e_conto2

Minha cartografia sentimental apontava um terreno de dunas movediças,cobrindo e descobrindo tudo ao redor. Eu não tinha mapa algum.#e_conto2

Minha topografia interior,cheia de altos e baixos,servia-me de guia naquele mundo estranho,em que acordei sabendo que estava morto.#e_conto2

As duas almas gigantes,antigas e errantes,fizeram um pacto com o Tempo,depois que foram reunidas pelo Sr. Destino,naquele areal. #e_conto2

Duas almas perdidas,que se reencontraram em seus descaminhos: a intuição da Chuva fazendo companhia à emoção do Vento a rodopiar. #e_conto2

E eu,que morto estava,sabia que para renascer bastava ter no peito de novo estouro de manada a afugentar de vez aquela alma penada.#e_conto2

Enquanto os soldados fustigavam os portões da fortaleza delicada,eram castigados pela fúria da Chuva e do Vento num abraço mortal. #e_conto2

Com a alma na ponta dos dedos e a rosa-dos-ventos na palma da mão,fui seguindo em frente,pois ali adiante enterraram meu coração. #e_conto2

Diante da fortaleza delicada haviam três portões e dessa bifurcação,apenas um levava ao meu coração,de mim retirado ainda em vida. #e_conto2

Três caminhos e apenas um destino certo. Na porta do meio havia uma flor misteriosa,vermelha como sangue vivo e eu morto de amor. #e_conto2

Diante daquela única flor no areal,resolvi arrancá-la para por no casaco,mas eis que a dor do espinho devolveu-me a vida perdida. #e_conto2

Eu continuava invisível para os soldados que olhavam aqueles pingos vermelhos no chão,procurando ao redor pelo inimigo ferido. #e_conto2

Vento e Chuva cessaram seu bailado,enquanto o portão do meio se destrancou sem explicação e pude adentrar na fortaleza delicada. #e_conto2

Entre o inesperado e o aguardado há caminho secular por onde temos que passar com o coração trespassado,no presente rumo ao futuro.#e_conto2

E que culpa tem o Tempo se o Vento é do Sul e a Chuva vem do Norte,se tudo depende,seja Vida ou Morte,mais de jeito do que sorte? #e_conto2

Toda alma é secreta,guardada a sete chaves,por sete vidas,dentro dum corpo qualquer,mera embalagem do viver e libertada pelo Amor. #e_conto2

O Vento do Sul e Chuva do Norte,duas almas gigantes,se encontraram num lugar remoto,perdido dentro de alguém e guardado em mim. #e_conto2

Pela porta lacrada da misteriosa construção,nada mais passou daquele dia em diante,nada mesmo,sequer o tempo ou alguma assombração. #e_conto2

O fogo da paixão e a luz do amor guiaram meus passos,que não deixam marcas pelo chão,até o portão.E eu morto,pensei:outra dimensão?#e_conto2

Mesmo desfalecido de mim,eu bem que sabia: o amor atua como uma bomba de efeito retardado,com tempo marcado para se abrir em flor. #e_conto2

Quem teme a vida,mais que a morte e o amor mais que a sorte,não deveria estar perto de mim,nem de meu jardim,no dia da floração. #e_conto2

O caminho que me trouxe até a fortaleza delicada fazia parte da bifurcação traçada e tatuada pelo Destino na palma da minha mão. #e_conto2

Para abrir aquela porta lacrada pelo Tempo,precisaria travestir-me de Vento,para entrar pelas frestas do próprio Tempo,indo além. #e_conto

No pacto com o Tempo,o Vento e a Chuva prometeram-se amor (e)terno,até o dia que suas almas gigantes encontrassem dois corpos.#e_conto2

Dois seres -1 corpo imenso d'água e outro gigante de ar em movimento- não conseguiam,pela eternidade,consumar o amor q os aproximou.#e_conto2

A Chuva tem seu corpo d'água movido pelo Vento e este,a todo momento,movimenta-se ao seu redor,por conta do amor à dama das águas. #e_conto2

Diante daquela fortaleza delicada forte delicadeza me tomou pela mão e só assim consegui atravessar o imenso portão trancafiado. #e_conto2

Trancado por dentro e nunca mais aberto por fora,o portão,lá dentro,eu morto,vi a silhueta de bela senhora envolta em véus escuros.#e_conto2

Obscuros são os caminhos do coração partido em bifurcação.Enlutada estava a Sra. daquele forte sitiado por canhões rugindo lá fora. #e_conto

A única trégua existente foi quando o Vento seguindo os passos da dama das àguas,a Chuva,postou-se com sua amada naquele umbral. #e_conto2

Enquanto isso,lá dentro,eu morto,mais ventava do que respirava e a Sra. daquela cidadela chovia sem parar por causa da sua solidão.#e_conto2

Para os apaixonados o tempo e o espaço são medidas,nunca limites.Os apaixonados limitam-se apenas a pactuar com o tempo e a vida.#e_conto2

A porta trancafiada por dentro, dentro daqueles dois solitários um mundo perdido sendo redescoberto em um segundo. #e_conto2

O vento faz-se gente de areia, a chuva veste-se de sereia com seu corpo d´água. Toda a mágoa do mundo, jaz fundo naquele rincão... #e_conto2

Toda gente daquela terra, sente-se viva, ainda que um só dia, por toda vida, somente quando sangra a alma, mais que o coração.. #e_conto2

O Vento do destino bifurcou os meus caminhos,levantou a poeira dos dias,fez-me ver o que as dunas do esquecimento escondiam... #e_conto2

Na cidadela,até então,inexpugnável,o vento embrenhou-se pelas frestas do portão e lá dentro tomou a forma da mais pura emoção. #e_conto2

A razão dizia à mulher solitária que o temporal lá fora,ali dentro,tinha outra razão de ser e em um novo ser se transforMARIA. #e_conto2

Quem nunca amou de verdade,jamais atravessou o pontilhão balouçante que separa as cidades da Razão da Emoção,pátrias dos amantes. #e_conto2

Um mundo inteiro se abriu em um segundo,separando o véu do passado do céu do futuro,quando o Outro viu fundo a Sra. enlutada. #e_conto2

Lá fora, Chuva e Vento silenciaram. Ali dentro da fortaleza delicada,um turbilhão de sentimentos e movimentos foram tomando forma. #e_conto

Vento e Chuva,vagando séculos juntos,sem se darem as mãos,viram no casal da fortificação,a chance de reunir,enfim,corpo e alma. #e_conto2

De tanto o Outro suspirar em vão,o Vento assumiu sua intenção.E a moça de tanto chorar ao léu,a Chuva transpôs do céu sua aflição. #e_conto2

Naquele local perdido no tempo e no espaço,longe de tudo e fora dos mapas,por um momento único,o casal secular consumou o seu amor. #e_conto2

O Vento,por um momento fez-se homem e a Chuva,por um instante,tornou-se mulher. Suspiros e choros foram silenciados. Gemidos, não. #e_conto2

O Outro,cedendo o corpo ao Vento,passou a explorar a topografia da mulher que dera vida à Chuva. O monte e o delta de Vênus mapeou.#e_conto2

Lá fora da fortaleza, os soldados petrificados não conseguiam mexer um músculo. O Tempo parara também para tudo observar. #e_conto2

O amor nunca chega antes do amar, assim como a dor nunca antecede a fúria do mar. Naquele instante só restava esperar. #e_conto2

E eu pude reunir-me com o meu Outro, e a rainha enlutada reviver o seu grande amor. Éramos novamente dois em um... #e_conto2

Naquele mundo perdido, em que a solidão havia vencido, apenas o amor verdadeiro libertava cada alma penada de sua prisão...#e_conto2

Foi preciso a eternidade para que Vento e Chuva, como vinho, e uva pudessem tornar a viver, e reviver seu perfume e sabor. #e_conto2

Quando o Tempo passou a movimentar outra vez sua mágica engrenagem, os soldados saíram de seu estado de suspensão. #e_conto2

Todos os soldados entraram desconfiados na fortaleza. Havia uma doce calmaria, onde antes imperava um imenso temporal. #e_conto2

Não acharam sinais de vida, nem corpo nem alma naquela calma. Só viram pequeno lago que se formou. #e_conto2

O soldado mais jovem quis encher o seu cantil com aquela água pura e cristalina, mas uma visão o sobressaltou... #e_conto2

Lá no fundo do pequeno lago um casal abraçado o observava como receio de que a água bebida, extinguisse aquele amor. #e_conto2

Então, o jovem soldado, sem nada dizer, avisou que aquela água poderia estar contaminada, que precisava dali sair. #e_conto2

Quando o último soldado enfim se retirou do local, o jovem olhou pela última vez aquele pequeno lago, que ficaria retido para sempre em sua retina. #e_conto2

Mas não saiu imune. Levou, com a complacência de meu Outro, uma pequena porção daquele amor secular em seu cantil. #e_conto2

De mil e mil anos Vento e Chuva se encontram naquele areal, no meio daquele mundo perdido, para renovar a esperança nos pequenos seres mortais. #e_conto2

Um ritual milenar que precisa de alguém para guardar uma amostra do ar em movimento e da água dançante, que vivem juntos, desde sempre. #e_conto2

Tudo estava, enfim, sacramentado: o amor, por fim, consumado, e o tempo consumido pela espera ficará sempre guardado em mim. #e_conto2

THE END

#e_conto, escrito em tempo real e online, no Twitter e depois publicado neste blog, por José Antonio Klaes Roig (conto protegido pela lei de direitos autorais).

Abaixo, trilha sonora informal do #e_conto2:

1. ALANIS MORISSETTE - NOT AS WE (NÃO COMO NÓS)

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=uk7CuWGY43g

2. JORGE VERCILO - FÊNIX

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=PQ1XHiYs6Ys

3. MUSE - NEUTRON STAR COLLISION (LOVE IS FOREVER)

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=MTvgnYGu9bg

4. STING & I MUVRINI - FIELDS OF GOD

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=BFNCiKqOoWE

5. YIRUMA - DESTINY OF LOVE

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=avZMM179-lo

6. TIMBALAND & ONE REPLUBLIC - APOLOGIZE

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=00kXKunX9rU

7. SNOW PATROL - RUN

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=xpqAxze8T60

8. INESSA GALANTE - LASCIA CH'IO PIANGA (ÁRIA DA ÓPERA RINALDO DE HANDEL)

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=gTwauWzxbtQ&feature=related

9. PAULO RICARDO - ONDE ESTÁ MEU AMOR

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=ejSG3M1R5S0&feature=related

10. SKANK - SUTILMENTE

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=18UCPZgj0EE&feature=fvst

11. MARIZA TERRA - HÁ PALAVRAS QUE NOS BEIJAM

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=tNxkyzXJeBI

12. ORANGE VOICES - SCREW SADNESS

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=NYgYiD1Gcoc&NR=1

13. SHAKIRA - PIENSO EM TI

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=L1S5XdTg1aw&feature=related

14. ALANIS MORISSETTE - UNDERNEATH

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=7lbAe1Q7IQg

15. EMMA SHAPPLIN - CUERPO SIN ALMA (ÓPERA OBSCURA)

Fonte: http://youtu.be/S8aj5Z0qGFA

16. LIGHT OF AIDAN FEAT. NOTE FOR A CHILD - IMPOSSIBLY BEAUTIFUL (INCRIVELMENTE BONITO)

Fonte: http://youtu.be/x5Y8x1zXE-w

sábado, 26 de junho de 2010

O passageiro das quatro estações


Quando a moça adentrou no portal,ele sabia que poderia amá-la por conta própria.Também sabia que não poderia amá-la por si só. #e_conto

Talvez,pelo fato de que a vida imite sem jeito o sonho;e o sonhar talvez seja como reacomodar o viver em sentido contrário! #e_conto

E o moço,meio que a contragosto,fez de conta que não entendia os sinais,deixando ao Mágico Tempo decifrar seus próprios enigmas. #e_conto

Viver é escrever o próprio destino,além das próprias palavras.E o moço vazio de si bem sabia que o mundo era bem maior que isso. #e_conto

As palavras possuem vida própria,mas nem tudo elas podem contar.Entre o segredo e o degredo há às vezes grande interrogação. #e_conto

O moço,passageiro do próprio destino,num desatino,desceu naquela misteriosa estação,sem malas nem itinerário,atrás daquela moça. #e_conto

Não era aquele o seu caminho,ele sabia,até descobrir que nada sabia,nem de si mesmo.Sua bússola sentimental é que o guiou até ali. #e_conto

Naquela estação,como um estranho portal,o coração do moço sentiu o tempo rodopiar em falso,feito redemoinho sem explicação. #e_conto

Naquele mundo,um segundo era um montão.A moça era soberana de seus sonhos,e o trem,que ía e vinha,tinha a sua própria missão. #e_conto

O destino os aproximou,destinados estavam a se cruzar naquela estação,ainda que estivessem noutra estação interior ao desembarcar. #e_conto

Quando ele a viu primeiro,e ela nem notou,ele sabia,depois lhe contou,que tinha certeza de conhecê-la,mesmo diante do improvável. #e_conto

Inimaginável é passar por essa vida com a bússola errante,passando diante do seu Norte magnético,com pressa,sem o reconhecer. #e_conto

Mas o destino mostrou-lhe que aquela viagem(e desembarque)era apenas de passagem.Em apenas uma imagem,toda uma outra vida pode ver. #e_conto

Nem tudo que se vê,se crê.Nem tudo que se crê,se vê.Ele,que nem sabia de sua existência,intuía que um dia iria,enfim,conhecê-la. #e_conto

E naquele instante,diante da moça de seus sonhos,ele tornou-se quase imortal,recuperando em parte suas recordações. #e_conto

Lembrou-se da primeira estação,quando era ainda verão,e o calor da primeira paixão o fizera soldado fiel daquela bela rainha. #e_conto

Naquele tempo distante,ele soldado errante,morrera literalmente de amor,guerreando pelo reino encantado em que a moça era soberana. #e_conto

Recordara também da segunda estação,quando as flores caíam sem parar,e que sempre chegava atrasado para conhecer seu grande amor. #e_conto

Nela,ele era escravo fugitivo,e a moça liberta,uma defensora da liberdade,igualdade e fraternidade.Ele perdera a cabeça,ela não. #e_conto

Depois que o destino joga os seus dados,tudo está fadado a acontecer conforme a soma dos quadrados,o moço sabia muito bem. #e_conto

Depois que o amor joga os seus invisíveis dardos,nem tudo é tão certeiro,visto que o alvo é sempre móvel,e a vida tão passageira. #e_conto

Na terceira estação,frio,vento,chuva,encaixaram-se como luva no ânimo do poeta,que mais uma vez chegou atrasado ao encontro marcado.#e_conto

Quando o moço reencontrou a mesma mulher das demais estações,ela estava destinada a outro,e ele resignou-se com aquele desencontro. #e_conto

Foi na quarta estação,a das flores,enfim,quando ele ali desceu,sempre sem destino,que um mundo novo se descortinou ao seu redor. #e_conto

Na última estação,o moço pode recordar de todas as demais.E o tempo recomeçou a girar os grãos de sua imensa ampulheta mágica. #e_conto

E o moço,até então de olhos bem abertos,sonhando acordado,na verdade foi despertado pelo apito de um trem,vindo sabe-se lá de onde. #e_conto

Desperto do transe,o passageiro das quatro estações,indagou-se sobre a possibilidade de existir vida sem sonho n'algum outro lugar. #e_conto

Sentado no meio da estação,solitário em plena multidão,pensou se quando se perde o sonho perde-se também o sono e algo mais. #e_conto

De olhos bem abertos,o moço custou a acreditar no que via:diante dele,a mulher dos seus sonhos se materializara num pestanejar. #e_conto

O passageiro viajara pelas quatro estações,ora subvertendo a lógica do tempo,ora subtraindo dos dias aquela imensa saudade. #e_conto

Ele a conhecia,desde sempre,eternamente;ela é que o estava conhecendo apenas naquele instante em que o sonho imitou a realidade. #e_conto

Ele olhou para ela como quem retorna de longa viagem,sentindo-se em casa como se nunca tivesse sido habitado antes por aquela visão.#e_conto

A moça do brinco dourado,de pé naquela estação,viu um mar de rostos sem expressão - todos vagando apressados -,fixando-se em um só. #e_conto

De mundos diversos:um sem mala alguma;outra com a bagagem pesada demais,como quem carrega pedras ou deseja por uma sobre algo. #e_conto

O moço sem nome ofereceu à moça de seus sonhos ajuda para carregar as malas,sem se importar com o destino daquele trem das onze. #e_conto

Ela reconheceu nele o reflexo de um amigo distante - passageiro de um tempo errante - que não soube bem precisar,até o trem apitar. #e_conto

O tempo possui três dimensões entrecruzadas: o sonho,o segredo e a vida.O destino possui também três: a amizade,a paixão e o amor. #e_conto

A cada reviver,o passageiro nem sempre dá-se conta de em qual dimensão poderá desembarcar,carregando apenas a bagagem interior. #e_conto

Depois de vagar pelas quatro estações,ele enfim chegou adiantado,aguardando pela chegada da moça do brinco dourado,naquela estação. #e_conto

Naquele instante único,passado,presente e futuro brincaram de rosa dos ventos na mente do passageiro,condutor do próprio destino. #e_conto

Nas três estações anteriores,ele tinha confundido as placas com outra sinalização,descendo bem antes ou muito depois da moça. #e_conto

A viagem era longa e a esperança do reencontro mais longa ainda.O passageiro já temia que a viagem fosse apenas em sua imaginação. #e_conto

Passou a duvidar do que vivia (não do que sentia) e da possibilidade que nutria de viajar no tempo;daquele amor torná-lo imortal. #e_conto

Ah,o amor!Não é flor delicada que se colha na primeira estação.Os céticos dirão que tudo não passa de coisa de poeta,de sonhador. #e_conto

A moça,desconhecendo a jura secreta do moço,vagando pelos corredores do tempo,convidou-o para sentar-se ao seu lado no trem lotado. #e_conto

Lado a lado,Solitário e Solidão olharam-se ao seu modo.Ele confiava no tempo e no amor;ela desfiava seu novelo,fiando suas memórias.#e_conto

A moça reconhecera no ilustre desconhecido,um passageiro dos seus sonhos perdidos,um conhecido que retornava de viagem sem avisar.#e_conto

Todo encontro às vezes é um reecontro às avessas,promessa de vida,quando duas pessoas por acaso,despem-se do corpo e vestem a alma. #e_conto

Desconfiavam que nada é por acaso,nem mesmo o acaso,quando se encontraram naquela derradeira estação e embarcaram naquele trem. #e_conto

Ele recusava-se a viver outra viagem sem poder amar dessa vez de fato,ainda que o Amor parecesse uma palavra quase sobrenatural. #e_conto

Sem aquela procura e sentimento agregado àquela moça,sua imortalidade era banal.E sem aquele encanto,o passageiro era reles mortal. #e_conto

O moço temia que se o amor verdadeiro,de fato não existisse,a vida seria grande prisão a céu aberto,o que faria dele um fugitivo. #e_conto

Sua pequena imortalidade vagava no sentido inverso de sua imensa felicidade,que seguia junto à moça,naqueles trilhos e dormentes. #e_conto

Metade dos passageiros dormia de olhos fechados,a outra metade de olhos abertos.Os únicos acordados eram ele, ela e o maquinista. #e_conto

Diante do óbvio,de que o Amor nos possui,mas nem sempre possuímos o Amar,o passageiro percebeu,enfim,que não precisava mais voltar. #e_conto

Aquela era a sua última e longa viagem,tinha perdido pelo caminho parte da inocência e imortalidade,mas era preciso seguir adiante. #e_conto

Enquanto a moça tricotava suas memórias,ele,sentado ao seu lado,pensava que o Amor é em parte uma viagem interior,uma idealização. #e_conto

Todo passageiro das quatro estações nunca sabe ao certo o que se passa além do mundo exterior,dentro do mundo particular da amada. #e_conto

Mesmo assim,tudo que é verdadeiro lembra chama: alimentada deve estar para que possa alimentar também o sonhar e o amar de cada um. #e_conto

A viagem se completa,por sorte,quando o passageiro encontra ao seu lado,mais que a companheira de viagem,além do meio de transporte.#e_conto

A viagem era longa e os demais estavam sonolentos.O moço teria dessa vez tempo de sobra para estar com a amada de outras estações. #e_conto

Aquela seria,com certeza,a sua última viagem,independente do que acontecesse pelo caminho com seu Amor e o seu Amar,isso ele sabia. #e_conto

O passageiro das quatro estações abdicaria de sua imortalidade infecunda,para fecundar na vida comum daquela moça,outra esperança. #e_conto

Quando a moça subiu naquele trem,ele sabia que poderia amá-la por conta própria.Mas também sabia que não poderia amá-la por si só. #e_conto

THE END

José Antonio Klaes Roig

Observação:

Este primeiro #e_conto surgiu de forma despretensiosa, como uma experimentação das possibilidades literárias do Twitter, e foi tomando uma proporção maior do que estimava seu autor. Muitos dos tweets foram desencadeados através de papos informais, que tornaram-se filosóficos, e depois reformulados para serem incorporados em 140 caracteres mais a #tag #e_conto. Foi desafiador, mas confesso que igualmente motivador, pela recepção do público tuiteiro.
Um exemplo disso, foi a mensagem da coleg'amiga Karine Paim, registrada aqui no espaço de comentário deste post, que dizia que ao ler os tweets do #e_conto, chegava a ouvir a canção Por Enquanto, na voz de Cássia Eller, logo abaixo.
Grato a Karine e todos os tuigos que de forma direta ou indireta influenciaram na criação, manutenção e conclusão deste projeto literário, barizado de #e_conto (Contos Eletrônicos).
A formatação dele também se propõe subverter a lógica do próprio blog, ao colocar todos os tweets numa mesma postagem, possibilitando que o leitor acompanhe a história de modo convencional: de cima para baixo.
Enfim, uma forma também de educadores trabalharem produção textual com seus alunos, de forma curta, concisa, clara e objetiva.
Conversando com outra coleg'amiga, a prof. Elis Zampieri, com quem divido outro projeto literário, o R.E.M. - Rápido Movimento do Olhar, vimos possibilidades de que outros educadores possam se apropriar de ferramentas como Twitter, Blog etc, mesclando arte e cultura, educação e tecnologia, literatura e interpretação de textos, sem falar na possibilidade de um educador trabalhar com outro, mediando uma oficina em que os alunos sejam distribuídos em três grupos: o primeiro, dos poetas, que se dediquem a criação de uma história; o segundo, que busque imagens para ilustrar a história, seja fotografia, desenho, imagem da web, e o terceiro, que trabalhe com música, criando ou não também uma trilha sonora.
Está ai lançado um desafio a outros educadores...

Abaixo, trilha sonora informal, construída junto com esse primeiro #e_conto:

1. CÁSSIA ELLER - POR ENQUANTO


Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=XVVmAG0RXmo

2. RONAN KEATING - IF TOMORROW NEVER COMES (SE O AMANHÃ NUNCA CHEGAR)

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=J8TMrqMJv6I

3. ADRIANA CALCANHOTO - NAQUELA ESTAÇÃO

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=9q-4ghSFDzI&feature=related

4. JOHH MAYER - FREE FALLIN' (CAINDO LIVREMENTE)

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=fUioEjImYak&feature=related

5. JOE BROOKS - MY HEART WILL WAIT (MEU CORAÇÃO VAI ESPERAR)

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=b-MqrPT1EqA&feature=PlayList&p=EFAAA7181F3FAE1D&playnext_from=PL&playnext=1&index=56

6. LEONA LEWIS - I SEE YOU (EU TE VEJO)

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=2wCBxCZ8Q44&feature=related

7. ZÉLIA DUNCAN - PELO SABOR DO GESTO

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=eHdlGpHxCdQ

8. JAY-Z E MR HUDSON - FOREVER YOUNG (PARA SEMPRE JOVEM)

Fonte:http://www.youtube.com/watch?v=Tx7hhPvC41g

9. NANDO REIS - POR ONDE ANDEI

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=pnxRvHKjC3Y&feature=related

10. MOBY - DREAM ABOUT ME

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=cPmVHMPn9jI

11. COLDPLAY - THE SCIENTIST

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=BsuU9pnQhFg

12. LENINE - AQUILO QUE DÁ NO CORAÇÃO

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=a9TioUeZ4e8

13. JOE EGAN - BACK ON THE ROAD

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=wZecmBRpfXI

14. RENATO RUSSO - IF TOMORROW NEVER COMES (SE O AMANHÃ NUNCA CHEGAR)

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=6d0jmgmCuuY

O que é o #e_conto ?


Utilizando os 140 caracteres do Twitter, estou experimentando possibilidades literárias do que batizei de #e_conto , uma tag (palavra-chave) para organizar um conto em curta-metragem mesmo. É uma experiência intimista, sem maiores elaborações, fruto às vezes de conversas no próprio Twitter ou MSN, ora fruto de insight's,ora da da própria inspiração.
O primeiro conto eletrônico, trará ao final de cada tweet publicado no meu Twitter @zeroig, a #tag (palavra-chave) #e_conto.
O próximo será #e_conto2 e assim sucessivamente, cada vez mais diminuindo a quantidade disponível para criação, em 140 caracteres, menos a #tag.
Um exercício de produção textual, de criatividade, originalidade e exercício de clareza, concisão e inspiração, que professores de português e literatura poderiam experimentar também com seus alunos.