Ali estava a mulher, atada ao altar, diante do sacerdote, aguardando que a adaga afiada extraísse seu coração, ainda pulsando, naquele estranho e insano ritual dos adoradores do Sol.
Séculos passaram, noutra espécie de altar, outra mulher, prostrada numa cama qualquer, aguarda por outra violência, perpetrada em nome do amor à Lua, num ritual profano de quem se vende por alguns tostões... Seu coração será mantido no peito, mas ali naquele leito, seu órgão vital será estripado sem deixar nenhum sinal...
E a mão do destino girou mais uma vez a ampulheta. Num local não identificado entre os trópicos de Câncer e Capricórnio, um homem deitado sobre o leito aguarda pelo ritual mágico da entrega total entre ele a sua parceira, ambos adoradores um do outro, dois corações batendo como se fossem um só. O Sol e a Lua ficaram como coadjuvantes, enciumados por não terem sido convidados para aquele inesquecível ritual...
José Antonio Klaes Roig
Observação 1: Microconto acima, de minha autoria, escrito em 24/01/2012 e protegido pela lei de direitos autorais.
Observação 2: Imagem acima, copiada do endereço abaixo
http://olapidario.blogspot.com/2010/08/sacrificios-humanos.html
1 Não era vidente,mas tinha presságios,pré-sentimentos, antes de a mulher de seus sonhos,de olhos bem abertos,reencontrar. #microcontoroig 2 Inês era seu prenome.Mulher sem comparação em tempo sem igual.Inesquecível,o sentimento desde então,quando tornou-me imortal.#microcontoroig 3 Pediu ao Destino a mulher de seus sonhos e foi-lhe dito: Feche os olhos e aprenda a sonhar,quando acordar,o Futuro lhe dirá.#microcontoroig
José Antonio Klaes Roig
Observação: Imagem acima, colagem antiga de minha autoria, feita a partir de recortes de revistas, usando apenas tesoura e cola bastão, e digitalizando o resultado para o computador.
Os 12 microcontos abaixo, escrevi durante a Bienal do Livro RJ 2011 - dentro da promoção do RioEduca SME - RJ, de incentivo à literatura via Twitter. Resolvi ilustrado o post com uma colagem antiga, de minha autoria também, pois une o pássaro (símbolo do Twitter) e um teclado, numa fusão de tweets e literatura eletrônica...
1 Notas promissórias vencidas de um lado e promessas de amor em notas dos classificados do jornal. Fechou os olhos: Uni,duni,tê. #ETC_Bienal 2 O único amor possível é o impossível, disse a personagem ao autor, que desconfiado, preferiu mudar de assunto, reescrever tudo. #ETC_Bienal 3 À margem esquerda do rio, estranha inscrição ao chão sublinhado: 3 cm. O céu centralizado entre nuvens. Tudo perfeito demais. #ETC_Bienal 4 Fechou os olhos por um segundo,mergulhando em si. Temeu afogar-se nas memórias submersas e não mais emergir. Acordou inundado. #ETC_Bienal 5 A porta do sonho estava entreaberta,mas ela não sabia.Ele,sonhando acordado - sentinela do sono -,chaveou o tempo de regressar. #ETC_Bienal 6 Pintor de letras,queria a obra-prima criar. Fez a amada à sua imagem e semelhança,com algumas discrepâncias para emol...durar. #ETC_Bienal 7 Passo marcado,demarcando seu espaço naquele tempo,seguiu em frente,com o marcapasso das horas delimitando caminhos.Tuc tuc tuc #ETC_Bienal 8 Bastava cimentar as paredes do coração e tudo resolveria,sem lembrar da bomba-relógio que carregava no peito,antes da implosão. #ETC_Bienal 9 Na sua roupa havia passado.A sua roupa ainda não havia passado.Ferro chiando,trem apitando.A vida locoMOTIVA a cada estação. #ETC_Bienal 10 Bordar e transbordar,pensava a Sra.dos Aneis,esperando pelo seu amor pescador retornar do mar.Rede de pesca e de dormir.Ah,mar. #ETC_Bienal 11 A Vírgula não tinha encontrado o seu sentido de ser,até que precisou socorrer o jovem apressado a tornar a respirar. #ETC_Bienal 12 No espelho de vidro não via mais seu reflexo.Perplexo,só se reencontrou nas poças d'águas da chuva que vinha do mar de dentro. #ETC_Bienal
Quando a moça adentrou no portal,ele sabia que poderia amá-la por conta própria.Também sabia que não poderia amá-la por si só. #e_conto
Talvez,pelo fato de que a vida imite sem jeito o sonho;e o sonhar talvez seja como reacomodar o viver em sentido contrário! #e_conto
E o moço,meio que a contragosto,fez de conta que não entendia os sinais,deixando ao Mágico Tempo decifrar seus próprios enigmas. #e_conto
Viver é escrever o próprio destino,além das próprias palavras.E o moço vazio de si bem sabia que o mundo era bem maior que isso. #e_conto
As palavras possuem vida própria,mas nem tudo elas podem contar.Entre o segredo e o degredo há às vezes grande interrogação. #e_conto
O moço,passageiro do próprio destino,num desatino,desceu naquela misteriosa estação,sem malas nem itinerário,atrás daquela moça. #e_conto
Não era aquele o seu caminho,ele sabia,até descobrir que nada sabia,nem de si mesmo.Sua bússola sentimental é que o guiou até ali. #e_conto
Naquela estação,como um estranho portal,o coração do moço sentiu o tempo rodopiar em falso,feito redemoinho sem explicação. #e_conto
Naquele mundo,um segundo era um montão.A moça era soberana de seus sonhos,e o trem,que ía e vinha,tinha a sua própria missão. #e_conto
O destino os aproximou,destinados estavam a se cruzar naquela estação,ainda que estivessem noutra estação interior ao desembarcar. #e_conto
Quando ele a viu primeiro,e ela nem notou,ele sabia,depois lhe contou,que tinha certeza de conhecê-la,mesmo diante do improvável. #e_conto
Inimaginável é passar por essa vida com a bússola errante,passando diante do seu Norte magnético,com pressa,sem o reconhecer. #e_conto
Mas o destino mostrou-lhe que aquela viagem(e desembarque)era apenas de passagem.Em apenas uma imagem,toda uma outra vida pode ver. #e_conto
Nem tudo que se vê,se crê.Nem tudo que se crê,se vê.Ele,que nem sabia de sua existência,intuía que um dia iria,enfim,conhecê-la. #e_conto
E naquele instante,diante da moça de seus sonhos,ele tornou-se quase imortal,recuperando em parte suas recordações. #e_conto
Lembrou-se da primeira estação,quando era ainda verão,e o calor da primeira paixão o fizera soldado fiel daquela bela rainha. #e_conto
Naquele tempo distante,ele soldado errante,morrera literalmente de amor,guerreando pelo reino encantado em que a moça era soberana. #e_conto
Recordara também da segunda estação,quando as flores caíam sem parar,e que sempre chegava atrasado para conhecer seu grande amor. #e_conto
Nela,ele era escravo fugitivo,e a moça liberta,uma defensora da liberdade,igualdade e fraternidade.Ele perdera a cabeça,ela não. #e_conto
Depois que o destino joga os seus dados,tudo está fadado a acontecer conforme a soma dos quadrados,o moço sabia muito bem. #e_conto
Depois que o amor joga os seus invisíveis dardos,nem tudo é tão certeiro,visto que o alvo é sempre móvel,e a vida tão passageira. #e_conto
Na terceira estação,frio,vento,chuva,encaixaram-se como luva no ânimo do poeta,que mais uma vez chegou atrasado ao encontro marcado.#e_conto
Quando o moço reencontrou a mesma mulher das demais estações,ela estava destinada a outro,e ele resignou-se com aquele desencontro. #e_conto
Foi na quarta estação,a das flores,enfim,quando ele ali desceu,sempre sem destino,que um mundo novo se descortinou ao seu redor. #e_conto
Na última estação,o moço pode recordar de todas as demais.E o tempo recomeçou a girar os grãos de sua imensa ampulheta mágica. #e_conto
E o moço,até então de olhos bem abertos,sonhando acordado,na verdade foi despertado pelo apito de um trem,vindo sabe-se lá de onde. #e_conto
Desperto do transe,o passageiro das quatro estações,indagou-se sobre a possibilidade de existir vida sem sonho n'algum outro lugar. #e_conto
Sentado no meio da estação,solitário em plena multidão,pensou se quando se perde o sonho perde-se também o sono e algo mais. #e_conto
De olhos bem abertos,o moço custou a acreditar no que via:diante dele,a mulher dos seus sonhos se materializara num pestanejar. #e_conto
O passageiro viajara pelas quatro estações,ora subvertendo a lógica do tempo,ora subtraindo dos dias aquela imensa saudade. #e_conto
Ele a conhecia,desde sempre,eternamente;ela é que o estava conhecendo apenas naquele instante em que o sonho imitou a realidade. #e_conto
Ele olhou para ela como quem retorna de longa viagem,sentindo-se em casa como se nunca tivesse sido habitado antes por aquela visão.#e_conto
A moça do brinco dourado,de pé naquela estação,viu um mar de rostos sem expressão - todos vagando apressados -,fixando-se em um só. #e_conto
De mundos diversos:um sem mala alguma;outra com a bagagem pesada demais,como quem carrega pedras ou deseja por uma sobre algo. #e_conto
O moço sem nome ofereceu à moça de seus sonhos ajuda para carregar as malas,sem se importar com o destino daquele trem das onze. #e_conto
Ela reconheceu nele o reflexo de um amigo distante - passageiro de um tempo errante - que não soube bem precisar,até o trem apitar. #e_conto
O tempo possui três dimensões entrecruzadas: o sonho,o segredo e a vida.O destino possui também três: a amizade,a paixão e o amor. #e_conto
A cada reviver,o passageiro nem sempre dá-se conta de em qual dimensão poderá desembarcar,carregando apenas a bagagem interior. #e_conto
Depois de vagar pelas quatro estações,ele enfim chegou adiantado,aguardando pela chegada da moça do brinco dourado,naquela estação. #e_conto
Naquele instante único,passado,presente e futuro brincaram de rosa dos ventos na mente do passageiro,condutor do próprio destino. #e_conto
Nas três estações anteriores,ele tinha confundido as placas com outra sinalização,descendo bem antes ou muito depois da moça. #e_conto
A viagem era longa e a esperança do reencontro mais longa ainda.O passageiro já temia que a viagem fosse apenas em sua imaginação. #e_conto
Passou a duvidar do que vivia (não do que sentia) e da possibilidade que nutria de viajar no tempo;daquele amor torná-lo imortal. #e_conto
Ah,o amor!Não é flor delicada que se colha na primeira estação.Os céticos dirão que tudo não passa de coisa de poeta,de sonhador. #e_conto
A moça,desconhecendo a jura secreta do moço,vagando pelos corredores do tempo,convidou-o para sentar-se ao seu lado no trem lotado. #e_conto
Lado a lado,Solitário e Solidão olharam-se ao seu modo.Ele confiava no tempo e no amor;ela desfiava seu novelo,fiando suas memórias.#e_conto
A moça reconhecera no ilustre desconhecido,um passageiro dos seus sonhos perdidos,um conhecido que retornava de viagem sem avisar.#e_conto
Todo encontro às vezes é um reecontro às avessas,promessa de vida,quando duas pessoas por acaso,despem-se do corpo e vestem a alma. #e_conto
Desconfiavam que nada é por acaso,nem mesmo o acaso,quando se encontraram naquela derradeira estação e embarcaram naquele trem. #e_conto
Ele recusava-se a viver outra viagem sem poder amar dessa vez de fato,ainda que o Amor parecesse uma palavra quase sobrenatural. #e_conto
Sem aquela procura e sentimento agregado àquela moça,sua imortalidade era banal.E sem aquele encanto,o passageiro era reles mortal. #e_conto
O moço temia que se o amor verdadeiro,de fato não existisse,a vida seria grande prisão a céu aberto,o que faria dele um fugitivo. #e_conto
Sua pequena imortalidade vagava no sentido inverso de sua imensa felicidade,que seguia junto à moça,naqueles trilhos e dormentes. #e_conto
Metade dos passageiros dormia de olhos fechados,a outra metade de olhos abertos.Os únicos acordados eram ele, ela e o maquinista. #e_conto
Diante do óbvio,de que o Amor nos possui,mas nem sempre possuímos o Amar,o passageiro percebeu,enfim,que não precisava mais voltar. #e_conto
Aquela era a sua última e longa viagem,tinha perdido pelo caminho parte da inocência e imortalidade,mas era preciso seguir adiante. #e_conto
Enquanto a moça tricotava suas memórias,ele,sentado ao seu lado,pensava que o Amor é em parte uma viagem interior,uma idealização. #e_conto
Todo passageiro das quatro estações nunca sabe ao certo o que se passa além do mundo exterior,dentro do mundo particular da amada. #e_conto
Mesmo assim,tudo que é verdadeiro lembra chama: alimentada deve estar para que possa alimentar também o sonhar e o amar de cada um. #e_conto
A viagem se completa,por sorte,quando o passageiro encontra ao seu lado,mais que a companheira de viagem,além do meio de transporte.#e_conto
A viagem era longa e os demais estavam sonolentos.O moço teria dessa vez tempo de sobra para estar com a amada de outras estações. #e_conto
Aquela seria,com certeza,a sua última viagem,independente do que acontecesse pelo caminho com seu Amor e o seu Amar,isso ele sabia. #e_conto
O passageiro das quatro estações abdicaria de sua imortalidade infecunda,para fecundar na vida comum daquela moça,outra esperança. #e_conto
Quando a moça subiu naquele trem,ele sabia que poderia amá-la por conta própria.Mas também sabia que não poderia amá-la por si só. #e_conto
THE END
Observação:
Este primeiro #e_conto surgiu de forma despretensiosa, como uma experimentação das possibilidades literárias do Twitter, e foi tomando uma proporção maior do que estimava seu autor. Muitos dos tweets foram desencadeados através de papos informais, que tornaram-se filosóficos, e depois reformulados para serem incorporados em 140 caracteres mais a #tag #e_conto. Foi desafiador, mas confesso que igualmente motivador, pela recepção do público tuiteiro. Um exemplo disso, foi a mensagem da coleg'amiga Karine Paim, registrada aqui no espaço de comentário deste post, que dizia que ao ler os tweets do #e_conto, chegava a ouvir a canção Por Enquanto, na voz de Cássia Eller, logo abaixo. Grato a Karine e todos os tuigos que de forma direta ou indireta influenciaram na criação, manutenção e conclusão deste projeto literário, barizado de #e_conto (Contos Eletrônicos). A formatação dele também se propõe subverter a lógica do próprio blog, ao colocar todos os tweets numa mesma postagem, possibilitando que o leitor acompanhe a história de modo convencional: de cima para baixo. Enfim, uma forma também de educadores trabalharem produção textual com seus alunos, de forma curta, concisa, clara e objetiva. Conversando com outra coleg'amiga, a prof. Elis Zampieri, com quem divido outro projeto literário, o R.E.M. - Rápido Movimento do Olhar, vimos possibilidades de que outros educadores possam se apropriar de ferramentas como Twitter, Blog etc, mesclando arte e cultura, educação e tecnologia, literatura e interpretação de textos, sem falar na possibilidade de um educador trabalhar com outro, mediando uma oficina em que os alunos sejam distribuídos em três grupos: o primeiro, dos poetas, que se dediquem a criação de uma história; o segundo, que busque imagens para ilustrar a história, seja fotografia, desenho, imagem da web, e o terceiro, que trabalhe com música, criando ou não também uma trilha sonora. Está ai lançado um desafio a outros educadores...
Abaixo, trilha sonora informal, construída junto com esse primeiro #e_conto:
1. CÁSSIA ELLER - POR ENQUANTO
Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=XVVmAG0RXmo
2. RONAN KEATING - IF TOMORROW NEVER COMES (SE O AMANHÃ NUNCA CHEGAR)
Utilizando os 140 caracteres do Twitter, estou experimentando possibilidades literárias do que batizei de #e_conto , uma tag (palavra-chave) para organizar um conto em curta-metragem mesmo. É uma experiência intimista, sem maiores elaborações, fruto às vezes de conversas no próprio Twitter ou MSN, ora fruto de insight's,ora da da própria inspiração. O primeiro conto eletrônico, trará ao final de cada tweet publicado no meu Twitter @zeroig, a #tag (palavra-chave) #e_conto. O próximo será #e_conto2 e assim sucessivamente, cada vez mais diminuindo a quantidade disponível para criação, em 140 caracteres, menos a #tag. Um exercício de produção textual, de criatividade, originalidade e exercício de clareza, concisão e inspiração, que professores de português e literatura poderiam experimentar também com seus alunos.